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CONTOS NEGREIROS

Oi, Pockets!
Tudo certinho?
Aqui é a Evelyn e venho conversar com vocês sobre Contos Negreiros; então prepara o lencinho, para secar as lágrimas, o suor e o sangue, pois essa leitura foi - embora seja um exemplar pequeno - uma enorme saraivada de chicotadas, choro e conhecimento.



Título: Contos Negreiros 
Autor: Marcelino Freire 
Editora: Record
Ano: 2005-2020
Número de Páginas: 126
Nota Classificação Skoob: 4.0
Contos / Ficção / Literatura Brasileira
Sinopse: Um dos expoentes da nova geração de escritores brasileiros, Marcelino Freire se inspirou em clássicos brasileiros como Cruz e Sousa, Lima Barreto e Jorge de Lima para criar os contos deste livro. Apresentando uma releitura moderna do preconceito, Contos negreiros esquadrinha, com ironia e bom humor, questões como o homossexualidade e o conflito de classes.


Você já parou para imaginar como é a cor da sua pele chegar antes da sua personalidade? Antes das suas ideias, convicções, desejos? É por esse caminho que Marcelino Freire vai trilhar brilhantemente neste livro de minicontos dolorosos, provocativos - e por que não provocantes? - tão diminuto fisicamente, porém gigante no conteúdo.

Marcelino deixa bem claro que “(...) a gente não ouve só samba. Não ouve só bala. (...)”, ser preto - no Brasil e em qualquer lugar do mundo - não significa apenas ser uma coisa ou outra. Estigmas não funcionam, nem tudo está no mesmo pacote, entende? O corpo preto não é de estimação, muito menos artigo de exportação. Com ironias sutis, o autor critica os tons dissonantes gritados que os pretinhos são todos iguais para menos, um amontoado - glossário da Eve: grupo grande em um espaço pequeno. - que veio nos porões dos navios há um tempão e ainda hoje se encolhem num espaço com menos de um metro.

"Meu homem me obedece e me respeita. Por incrível que pareça, mesmo quando me põe de quatro, me machuca, me prende à vara na cama. Quando me chicoteia." pág. 102

Ah! A sexualidade preta... Freire faz dela uma comorbidade do racismo quase nada velado com maestria. Por pouco não deixamos passar o abuso por desejo e a dor como prazer. Romantiza-se a força como prática e está tudo bem, não é? Não! Pelo menos durante a escravatura o nome era certo: violência. O autor não adoça; engrossa o caldo preenchendo as lacunas com verdades que teimamos não ver - ou fazemos de conta? - sem sentimentalismos idealizados, cobrindo tudo com críticas tão duras quanto a ideia de “Okay usar o corpo negro para satisfazer os desejos mais sórdidos”.

E quando ele fala sobre o tráfico internacional? De maneira levemente despretensiosa, escancara e salga a ferida com a plenitude da poesia que machuca e explica. Se Marcelino encerra o livro dizendo que o corpo é vazio, seus contos são cheios. Estourando de dor, resignação e lá no fundinho, quase se perdendo nas reentrâncias do ser, uma dose de inconformismo.

Um livro necessário para quem almeja ver o outro lado da moeda, - tal e qual a arte da capa, brilhante, a propósito - de quem poderia se submeter ao vitimismo, mas não aceita os joelhos no chão, se ergue e fala, ainda que sem saber, de problemas presentes de longa data. Em um exemplar pocket, concentra um texto gigante em contos que conversam entre si, embora não sejam correlacionados.
A apresentação do livro foi digna de palmas e seria cruel encerrar este breve comentário sem citar a frase de Xico Sá que amarra tudo e entrega de presente esta obra tão linda: “Sorria, sorry, periferia, você está sendo invadido pelas câmeras do cinema-verdade!”

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No mais, lavem as mãos e fiquem em casa.
Beijos trevosos.



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