Doidinho de José Lins do Rego

Oi Pockets!

Espero que estejam bem. Seguindo com a parceria da Editora Global e com a minha leitura das obras de José Lins do Rego, a leitura da vez foi Doidinho, o segundo livro do ciclo da cana-de-açúcar. Depois de Menino de Engenho, em que acompanhamos a infância do Carlinhos no engenho Santa Rosa, aqui vemos o que acontece com ele quando é mandado para o colégio interno.

No enredo vamos acompanhar Carlos de Melo, com 12 anos, sendo levado pelo tio Juca para o Instituto Nossa Senhora do Carmo, em Itabaiana, conhecido como o colégio do seu Maciel. O colégio tinha fama de rigoroso e era o último recurso para “meninos sem jeito”. Logo no primeiro dia, Carlos é obrigado a comer o feijão que não queria e, pela primeira vez, é chamado pelo nome completo, e não mais de Carlinhos.

“Engoli, com um nó na garganta, a minha primeira boia de prisioneiro.”

Seu Maciel é um diretor muito severo, que corrige os alunos com a palmatória, os chamados bolos, por qualquer erro na lição ou mau comportamento. Carlos apanha já no primeiro dia e, durante todo o livro, vemos como o colégio parece uma prisão para ele. Temos também d. Emília, esposa do diretor, mais calma, e seu Coelho, pai dela, que faz papel de médico do colégio e muitas vezes defende os meninos.

“A palmatória era a sua vara de condão; com ela movia o seu mundo.”

Carlos é um menino nervoso, impaciente, que chora de saudade do engenho, e por isso ganha dos colegas o apelido que dá nome ao livro:

“Tinha também ganho o meu apelido: chamavam-me de Doidinho.”

No colégio todos têm apelido: Papa-Figo, Pão-Duro, Coruja. Coruja, que na verdade se chama José João, é o melhor aluno e se torna o grande amigo de Carlos. É ele quem escreve uma carta ao avô contando o que Carlos sofria no colégio, e acaba apanhando por isso. Temos também Aurélio, o Papa-Figo, um menino doente e esquecido pela família, que, junto com Carlos, é o único que não recebe nada de casa.

Carlos vive o despertar da adolescência no colégio: se apaixona por Maria Luísa, uma aluna externa, sente ciúmes, faz a primeira comunhão e tem muitas dúvidas sobre religião, pecado e inferno. Há também a cozinheira Paula, uma adulta que se aproveita dele, o que hoje entendemos como abuso, e depois ele fica com medo de morrer em pecado.

Uma das partes mais tristes é quando um colega conta no recreio a história do pai de Carlos, que matou a mãe dele, como conhecemos em Menino de Engenho. O apelido Doidinho passa a pesar ainda mais, porque o pai está internado como louco, e Carlos sofre com o medo de ter herdado a loucura.

Nas férias de São João, Carlos volta para o engenho, e é muito bonito ver a alegria dele ao reencontrar o avô José Paulino, o tio Juca e a vida livre do Santa Rosa. É nas férias também que recebe a notícia da morte do pai. Na volta para o colégio, as coisas pioram: Coruja vira decurião (o aluno que vigia e denuncia os outros), Aurélio morre doente no colégio, e Carlos continua sendo alvo de zombarias, apanhando cada vez mais.

“Agora já sabia o que era a cadeia.”

No fim do livro, aproveitando que o colégio sai para o desfile de 7 de setembro, Carlos foge sozinho de trem, volta para o engenho e, mesmo com medo da reação da família, chega ao Santa Rosa.

“E a solidão me fez mais medo do que o povo do Santa Rosa.”

Uma curiosidade é que o colégio do livro existiu de verdade. José Lins do Rego estudou no Internato Nossa Senhora do Carmo, em Itabaiana, e usou essa experiência para escrever Doidinho.

Doidinho é o segundo livro do ciclo da cana-de-açúcar, composto por 6 obras:

  1. Menino de Engenho (1932)
  2. Doidinho (1933)
  3. Banguê (1934)
  4. O moleque Ricardo (1935)
  5. Usina (1936)
  6. Fogo Morto (1943)

É uma história excelente e muito sensível, que mostra como era a educação da época, baseada no medo e no castigo físico. É importante lembrar que vão encontrar situações que incomodam: crianças apanhando todos os dias, humilhações, o abuso sofrido por Carlos e as marcas da escravidão que aparecem nas histórias das negras da cozinha e da vovó Galdina. Fiquei com o coração apertado pelo Carlinhos, que é uma criança órfã, sozinha e com saudade de casa. Para quem leu Menino de Engenho, é uma continuação essencial, e ajuda a entender o homem que ele se torna em Banguê (leia a resenha aqui!).

Já leram alguma obra do autor?

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